terça-feira, 13 de novembro de 2012

A "Mensagem" de Fernando pessoa


  Mensagem, de Fernando Pessoa, foi publicado ainda em vida. Composto por 44 poemas, foi chamado pelo poeta de "livro pequeno de poemas". Publicado em 1934 (apenas 1 ano antes da morte do poeta), pela Parceria António Maria Pereira, o livro foi contemplado no mesmo ano com o Prémio Antero de Quental, na categoria de ”poema ou poesia solta”.
A obra trata do glorioso passado de Portugal de forma elogiosa e tenta encontrar um sentido para a antiga grandeza e a decadência existente na época em que o livro foi escrito. Glorifica, acima de tudo, o estilo camoniano e o valor simbólico dos heróis do passado, como os Descobrimentos portugueses. É apontando as virtudes portuguesas que Fernando Pessoa acredita que o país se deva "regenerar", ou seja, tornar-se grande como foi no passado, através da valorização cultural da nação. O poema mais famoso do livro é “Mar Português”.
Tipo de poesia:
Poesia épico-irónica e lírica - épica porque se volta para celebração heróica de mitos colectivos (os grandes eventos e os heróis da história portuguesa), irónica porque essa celebração é feita sob o signo da irrealidade e da loucura (o que é celebrado não é o Portugal real mas o fantástico, produto da demência de seus grandes heróis), e lírica porque nos poemas sempre se exprime um eu, que pode ser o poeta ou alguma de suas personagens.
Estrutura da Mensagem:
Mensagem é um livro estruturalmente muito cuidado, apontando as três fases por que a Pátria terá de passar.
Esta tripartição simbólica «tem como base o facto de as profecias se realizarem três vezes, ainda que de modo diferente e tempos diferentes. Corresponde à evolução do Império Português que, tal como o ciclo da vida, passa pelo nascimento, realização e morte. Todavia, esta morte não poderá ser entendida como um fim definitivo, visto que a morte pressupõe uma ressurreição. Esta ressurreição culmina com o aparecimento de um novo império, desta vez não terreno, mas sim espiritual e cultural, a fim de atingir a paz universal ("E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas daquilo que os sonhos são feitos" – Fernando Pessoa).
Primeira Parte – “Brasão” (os construtores do Império)
A 1ª parte corresponde ao nascimento, com referência aos mitos e figuras históricas até D. Sebastião, identificadas nos elementos dos brasões. Dá-nos conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos.
Segunda Parte – “Mar Português” (o sonho marítimo e a obra das descobertas)
Na 2ª parte surge a realização e vida; refere personalidades e acontecimentos dos Descobrimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido e os elementos naturais. Mas porque «tudo vale a pena», a missão foi cumprida.
Terceira Parte –  “O Encoberto” (a imagem do Império moribundo, a fé de que a morte contenha em si o gérmen da ressurreição, capaz de provocar o nascimento do império espiritual, moral e civilizacional na diáspora lusíada. A esperança do Quinto Império)
Na 3ª parte aparece a desintegração, havendo, por isso, um presente de sofrimento e de mágoa, pois «falta cumprir-se Portugal». É preciso acontecer a regeneração que será anunciada por símbolos e avisos.

O Mostrengo*

O mostrengo que está no fim do mar
 Na noite de breu ergueu-se a voar;
 À roda da nau voou trez vezes,
 Voou trez vezes a chiar, E disse,
 'Quem é que ousou entrar
 Nas minhas cavernas que não desvendo,
 Meus tectos negros do fim do mundo?'
 E o homem do leme disse, tremendo,
 'El-Rei D. João Segundo!'

 'De quem são as velas onde me roço?
 De quem as quilhas que vejo e ouço?'
 Disse o mostrengo, e rodou trez vezes,
 Trez vezes rodou imundo e grosso,
 'Quem vem poder o que só eu posso,
 Que moro onde nunca ninguém me visse
 E escorro os medos do mar sem fundo?'
 E o homem do leme tremeu, e disse,
 'El-Rei D. João Segundo!'

 Trez vezes do leme as mãos ergueu,
 Trez vezes ao leme as repreendeu,
 E disse no fim de tremer trez vezes,
 'Aqui ao leme sou mais do que eu;
 Sou um Povo que quer o mar que é teu;
 E mais que o mostrengo, que me a alma teme
 E roda nas trevas do fim do mundo,
 Manda a vontade, que me ata ao leme,
 De El-Rei D. João Segundo!'

 *mostrengo: variante de monstrengo.
 El-Rei Dom João Segundo: rei de Portugal no período de 1481 a 1495. Seu reinado foi caracterizado por duas ações fundamentais: internamente, consolidou a centralização do poder; externamente, foi o responsável pelo plano de expansão marítima que levaria Portugal ao Oriente. Nesse plano de expansão marítima, o principal ponto era descobrir um caminho que levasse às Índias e a suas especiarias. Várias expedições foram enviadas para o 'fim do mar', isto é o extremo sul do Atlântico, em busca dos limites da África. Foi também no governo de D. João II que o Tratado de Tordesilhas - que dividia a Terra em duas des: uma para Castela (Espanha) e outra para Portugal 0- foi assinado em 1494.
Os custos da aventura marítima, em vidas e sofrimentos, são tocantemente lembrados num poema de que dois versos (os primeiros da segunda estrofe) se tornaram célebres e hoje soam quase como ditado da sabedoria tradicional.



Mar português

 Ó mar salgado, quanto do teu sal
 São lágrimas de Portugal!
 Por te cruzarmos, quantas mães choraram.
 Quantos filhos em vão rezaram!
 Quantas noivas ficaram por casar
 Para que fosse nosso, ó mar!

 Valeu a pena? Tudo vale a pena
 Se a alma não é pequena.
 Quem quer passar além do Bojador
 Tem de passar além da dor.
 Deus ao mar o perigo e o abismo deu.
 Mas nele é que espelhou o céu.

 Resumindo:
Mensagem é um livro estruturado em três partes: Brasão; Mar Português e O Encoberto.
 Ao todo, são 44 poemas mais ou menos curtos, que constituem uma epopéia fragmentária, sem unidade narrativa.
 Há fusão dos gêneros épico e lírico: a celebração de mitos, lendas, feitos e vultos de heróis lusitanos, próprios do gênero épico, realiza-se através de poemas em primeira pessoa, de intensa subjetividade, como é próprio do gênero lírico.
 Mensagem é um livro simbólico. Nele, imagens herméticas, de fundo esotérico, mobilizam-se para expressão do nacionalismo místico do autor.
 Mensagem contém uma visão messiânica sobre o destino de Portugal: o rei D. Sebastião (sebastianismo) voltaria para tirar o país da decadência em que mergulhou desde seu desaparecimento, Alcácer Quibir (1578), e reconduzi-lo à glória (o mito do Quinto Império).
 A intertextualidade entre Mensagem e Os Lusíadas é frequente: Fernando Pessoa retoma episódios e motivos da epopéia camoniana e o revista na forma de paródias sérias.
Quanto à linguagem, os poemas de Mensagem oscilam entre o equilíbrio clássico e a sinuosidade barroca.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Reflexões do Poeta: críticas e conselhos aos Portugueses


O Poeta faz diversas considerações, no início e no fim dos Cantos da sua epopeia, criticando e aconselhando os Portugueses.Por um lado, refere os «grandes e gravíssimos perigos», a tormenta e o dano no mar, a guerra e o engano em terra; por outro lado, faz a apologia da expansão territorial para divulgar a Fé cristã, manifesta o seu patriotismo e exorta D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português. Nas suas reflexões, há louvores e diversas queixas aos comportamentos. Se realça o valor das honras e da glória alcançadas por mérito próprio, lamenta, por exemplo, que os Portugueses nem sempre saibam aliar a força e a coragem ao saber e à eloquência, destacando a importância das Letras. Se critica os povos que não seguem o exemplo do povo português que, com atrevimento, chegou a todos os cantos do Mundo, não deixa de queixar-se de todos aqueles que pretendem alcançar a imortalidade, dizendo-lhes que a cobiça, a ambição e a tirania são honras vãs que não dão verdadeiro valor ao homem. Daí, também, lamentar a importância atribuída ao dinheiro, fonte de corrupção e de traições. Lembrando o seu «honesto estudo», «longa experiência» e «engenho», «Cousas que juntas se acham raramente», confessa estar cansado de «cantar a gente surda e endurecida» que não reconhecia nem incentivava as suas qualidades artísticas.

As reflexões que merecem destaque:


Canto I (est. 105-106); p.39


As traições e os perigos a que os navegadores estão sujeitos justificam este desabafo do Poeta.
Não será por acaso que esta reflexão surge no final do Canto I, quando o herói ainda tem um longo e penoso percurso a percorrer.
Ver-se-á, no Canto X, até onde a ousadia, a coragem e o desejo de ir sempre mais além pode levar o «bicho da terra tão pequeno», tão dependente da fragilidade da sua condição humana.

Canto V (est. 92-100); pp.74-75


O Poeta começa por mostrar como o canto, o louvor, incita à realização dos feitos; dá exemplos do apreço dos Antigos pelos seus poetas, bem como da importância dada ao conhecimento e à cultura, que levava a que as armas não fossem incompatíveis com o saber.
Não é, infelizmente, o que se passa com os portugueses: não se pode amar o que não se conhece, e a falta de cultura dos heróis nacionais é responsável pela indiferença que manifestam pela divulgação dos seus feitos. Apesar disso, o Poeta, movido pelo amor da pátria, reitera o seu propósito de continuar a engrandecer, com os seus versos, as «grandes obras» realizadas.
Manifesta, desta forma, a vertente pedagógica da sua epopeia, na defesa da realização plena do Homem, em todas as suas capacidades.

Canto VI (est. 95-99); p.77


Continuando a exercer a sua função pedagógica, o Poeta defende um novo conceito de nobreza, espelho do modelo renascentista: a fama e a imortalidade, o prestígio e o poder adquirem-se pelo esforço - na batalha ou enfrentando os elementos, sacrificando o corpo e sofrendo pela perda dos companheiros; não se é nobre por herança, permanecendo no luxo e na ociosidade, nem pela concessão de favores se deve alcançar lugar de relevo.

Canto VII (est. 3-14); pp.78-79)


Percorrido tão difícil caminho, é momento para que, na chegada a Calecut, o Poeta faça novo louvor aos Portugueses. Exalta, então, o seu espírito de Cruzada, a incansável divulgação da Fé, por África, Ásia, América, «E, se mais mundos houvera, lá chegara», assim inserindo a viagem à Índia na missão transcendente que assumiram e que é marca da sua identidade nacional. Por oposição, critica duramente as outras nações europeias - os «Alemães, soberbo gado», o «duro inglês», o «Galo indigno», os italianos que, «em delícias, / Que o vil ócio no mundo traz consigo, / Gastam as vidas» - por não seguirem o seu exemplo, no combate aos infiéis.

Canto VII (est. 78-87); pp.81-82)


Numa reflexão de tom marcadamente autobiográfico, o Poeta exprime um estado de espírito bem diferente daquele que o caracterizava, no Canto I, na Invocação às Tágides - «cego, […] insano e temerário», percorre um caminho «árduo, longo e vário», e precisa de auxílio porque, segundo diz, teme que o barco da sua vida e da sua obra não chegue a bom porto. Uma vida que tem sido cheia de adversidades, que enumera: a pobreza, a desilusão, perigos do mar e da guerra, «Nũa mão sempre a espada e noutra a pena;». Como não ver neste retrato a intenção de espelhar o modelo de virtude enunciado em momentos anteriores?
Em retribuição, recebe novas contrariedades - de novo a crítica aos contemporâneos, e o alerta, para inevitável inibição do surgimento de outros poetas, em consequência de tais exemplos.
Mas a crítica aumenta de tom na parte final, quando são enumerados aqueles que nunca cantará e que, implicitamente, denuncia abundarem na sociedade do seu tempo: os ambiciosos, que sobrepõem os seus interesses aos do «bem comum e do seu Rei», os dissimulados, os exploradores do povo, que não defendem «que se pague o suor da servil gente».
No final, retoma à definição do seu herói - o que arrisca a vida «por seu Deus, por seu Rei».

Canto VIII (est. 96-99); p.84


A propósito da narração do suborno do Catual e das suas exigências aos navegadores, são agora enumerados os efeitos perniciosos do ouro - provoca derrotas, faz dos amigos traidores, mancha o que há de mais puro, deturpa o conhecimento e a consciência; os textos e as leis são por ele condicionados; está na origem de difamações, da tirania dos Reis, corrompe até os sacerdotes, sob aparência de virtude.
Retoma a função pedagógica do seu canto, o Poeta aponta um dos males da sociedade sua contemporânea, orientada por valores materialistas.

Canto X (est. 145-156); p.99-100


Os últimos versos de «Os Lusíadas» revelam sentimentos contraditórios - desalento, orgulho, esperança.
«No mais, Musa, no mais […]» o Poeta recusa continuar o seu canto, não por cansaço, mas por desânimo. O seu desalento advém de constatar que canta para «gente surda e endurecida […] metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Dhũa austera, apagada e vil tristeza.». É a imagem que nos dá do Portugal do seu tempo. Por contrate, o orgulho naqueles que continuam dispostos a lutar pela grandeza do passado e a esperança de que o Rei saiba estimular e aproveitar essas energias latentes para dar continuidade à glorificação do «peito ilustre lusitano» e dar matéria a novo canto. O poema encerra, pois, com uma mensagem que abarca o passado, o presente e o futuro. A glória do passado deverá ser encarada como um exemplo presente para construir um futuro grandioso.



Canto IV – Episódio O Velho do Restelo ( estrofes 90 a 104)


O Velho do Restelo (canto IV, estrofes 94-104). O sentido do discurso atribuído ao Velho é bastante claro; não obstante, o episódio coloca alguns problemas quanto ao pensamento do poeta relativamente à questão tratada.  Os navios portugueses estão prestes a largar; esposas, filhos, mães, pais e amigos dos marinheiros apinham-se na praia (do Restelo) para dar seu adeus, envolto em muitas lágrimas e lamentos, àqueles que partiam para perigos inimagináveis e talvez para não mais voltar.

No meio desse ambiente emocionado, destaca-se a figura imponente de um velho que, com sua "voz pesada", ouvida até nos navios, faz um discurso veemente, condenando aquela aventura insana, impelida, segundo ele, pela cobiça-o desejo de riquezas, poder, fama.  Diz o velho que, para ir enfrentar desnecessariamente perigos desconhecidos, os portugueses abandonavam os perigos urgentes de seu país, ainda ameaçado pelos mouros e no qual já se instalava a desorganização social que decorreu das grandes navegações.

Segundo parece, o velho representa a opinião conservadora (alguns diriam "reacionária") da época - opinião da aldeia, do torrão natal, da vida segura, mas não heróica. Seria estranho que Camões se identificasse com esse tipo de atitude, pois, como observou J. F. Valverde, "não seria compreensível que compusesse uma epopéia para celebrar o que condenava como erro fatal".  Mas, segundo se pode inferir de diversos elementos do discurso do Velho, assim como do resto do poema, a opinião expressa no admirável discurso não era inteiramente rejeitada por Camões, por mais que ele fosse empolgado pelo empreendimento marítimo de seu país.  Como o Velho do Restelo pensavam muitos naqueles tempos, assim como muitos pensam hoje em relação a assuntos semelhantes (como a conquista espacial ou a manipulação genética, por exemplo).

Gil Vicente, que tratou de assunto semelhante, em chave cômica, no "Auto da Índia", poderia subscrever as palavras daquele "velho de aspecto venerando".  O discurso do Velho contém uma condenação enfática da guerra, de acordo com o ponto de vista do Humanismo, que era antibelicista. Mas o Velho, como Camões, abre exceção (sob a forma de concessão) para a guerra na África (lembremos que o poeta, no início e no fim do poema, recomenda enfaticamente a D. Sebastião que embarque nessa aventura).

Sabemos que havia, na época, uma corrente de opinião em Portugal que condenava a política ultramarina do país, direcionada desde D. João 3º em favor da Índia, com o abandono das conquistas africanas.  Portanto, o Velho do Restelo não é propriamente uma voz discordante a que o poeta concede um lugar em seu poema, representando nele simplesmente os rumores do povo ou o ponto de vista de um partido adversário da empresa que o poeta se punha a celebrar.

A fala do Velho é também a expressão de idéias camonianas, divididas entre o Humanismo pacifista e o belíssimo dos ideais da Cavalaria e das Cruzadas, cujo espírito muito influenciou a visão camoniana da missão de seu país.

O discurso do Velho do Restelo corresponde a um gênero antigo da literatura, cultivado desde os primórdios da poesia grega. Trata-se do gênero conhecido pelos gregos como propemptikón, ou seja, "adeus a um viajante que parte". 



O sonho de D. Manuel I Canto IV: Estrofes 74, 76.


Estas duas estrofes descrevem dois momentos subsequentes: em primeiro lugar, o sonho que o rei D. Manuel teve, no qual lhe apareceu o Rio Ganges para profetizar sobre Portugal, sendo que, mesmo depois de dar aos portugueses “dura guerra”, este grande povo lusitano iria dominar novas terras ultramarinas: “Mas, insistindo tu, por derradeiro. / Com não vistas vitórias, sem receio. / A quantas gentes vês, porás freio.”Em segundo lugar, a atitude imediata do rei, avisando os seus súbditos sobre os feitos gloriosos a eles reservados, o que os anima e faz partir de Lisboa em direcção ao Oriente, ávidos dessa glória, como se pode ler em “Determinam o náutico aparelho. / Pera que, com sublime coração, / Vá a gente que mandar cortando mares / A buscar novos climas, novos ares.” Repare-se na perífrase “náutico aparelho” (em vez de nau/caravela/barco) cuja expressividade é a de realce do meio por onde esse “aparelho” iria movimentar-se: o mar. 


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mitificação do herói em "Os Lusíadas"


A presença de divindades mitológicas é uma constante ao longo de todo o poema que, curiosamente (ou não), começa com um consílio entre os deuses e termina com a Ilha dos Amores.
À primeira vista, tudo isso poderia parecer uma grande contradição com as convicções do poeta, que era não só assumidamente cristão, como ainda um grande apelador da expansão da Fé e do espírito de cruzada. Mas essa contradição era facilmente explicada pelo seu espírito renascentista; pela capacidade que os humanistas possuíam em conjugar aspetos que, para muitos, seriam simplesmente inconciliáveis.
Além disso, e segundo a opinião de muitos estudiosos, a mitologia estava apenas presente por uma questão de estética e erudição. Nada mais representava, não constituindo sequer uma ameaça aos postulados da Igreja cristã. Assim pensou o padre Bartolomeu Ferreira, que leu a obra na figura de censor da Inquisição, e a autorizou sem achar “cousa alguma escandalosa”.
Na atualidade, porém, reconhece-se que o valor da mitologia é muito mais profundo e significativo, não podendo ela continuar a ser encarada como mera partícula decorativa. Os deuses pagãos têm uma vida própria e autónoma; têm a capacidade de intervir e influenciar o destino dos homens; possuem, em suma, o estatuto de verdadeiras personagens principais no contexto do poema. Basta analisar o confronto entre Baco e Vénus, cada qual com os seus aliados, para compreendermos o carácter e a profundidade que estas figuras assumem no desenrolar da narrativa. 


Mitologia em "Os Lusíadas"


A presença de divindades mitológicas é uma constante ao longo de todo o poema que, curiosamente (ou não), começa com um consílio entre os deuses e termina com a Ilha dos Amores.
À primeira vista, tudo isso poderia parecer uma grande contradição com as convicções do poeta, que era não só assumidamente cristão, como ainda um grande apelador da expansão da Fé e do espírito de cruzada. Mas essa contradição era facilmente explicada pelo seu espírito renascentista; pela capacidade que os humanistas possuíam em conjugar aspetos que, para muitos, seriam simplesmente inconciliáveis.
Além disso, e segundo a opinião de muitos estudiosos, a mitologia estava apenas presente por uma questão de estética e erudição. Nada mais representava, não constituindo sequer uma ameaça aos postulados da Igreja cristã. Assim pensou o padre Bartolomeu Ferreira, que leu a obra na figura de censor da Inquisição, e a autorizou sem achar “cousa alguma escandalosa”.
Na atualidade, porém, reconhece-se que o valor da mitologia é muito mais profundo e significativo, não podendo ela continuar a ser encarada como mera partícula decorativa. Os deuses pagãos têm uma vida própria e autónoma; têm a capacidade de intervir e influenciar o destino dos homens; possuem, em suma, o estatuto de verdadeiras personagens principais no contexto do poema. Basta analisar o confronto entre Baco e Vénus, cada qual com os seus aliados, para compreendermos o carácter e a profundidade que estas figuras assumem no desenrolar da narrativa. 


Estrutura externa de "Os Lusíadas"


O poema está escrito em versos decassílabos, com predomínio do decassílabo heróico (acentos n 6ª e 10ª sílabas). É considerado o metro mais adequado á poesia épica, pelo seu ritmo grave e vigoroso. Surgem também alguns raros exemplos de decassílabo sáfico (acentos na 4ª, 8ª e 10ª sílaba).

· As estrofes são de oito versos e apresentam o seguinte esquema rimático – “ab ab ab cc” ( a este tipo estrófico costuma chamar-se oitava rima, oitava heróica ou oitava italiana);

· As estrofes estão distribuídas por 10 cantos. O número de estrofes por canto vario de 87, no canto VII, a 156 no canto X. No seu conjunto, o poema apresenta 1102 estrofes.



Estrutura interna de "Os Lusíadas"


Os Lusíadas constroem-se pela sucessão de quatro fontes:

· Proposição – parte introdutória, na qual o poeta anuncia o que vai cantar (Canto I, estrofes 1-3);

· Invocação – pedido de ajuda as divindades inspiradores (A principal invocação é feita as Tágides, no canto I, estrofes 4 e 5, ás Ninfas do Tejo e do Mondego, no canto VII 78-82 e, finalmente, a Calíope, no Canto X, estrofe 8);

· Dedicatória – oferecimento do poema a uma personalidade importante. (Esta parte, facultaria, pode ter origem nas Geórgicas de Virgilio ou nos Fastos de Ovídio; não existe em nenhuma das epopeias da Antiguidade);

· Narração – parte que constitui o corpo da epopeia; a narrativa das acções levadas a cabo pelo protagonista. (Começando no Canto I, estrofe 19, só termina no Canto X, estrofe 144, apresentando apenas pequenas interrupções pontuais).


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Biografia e bibliografia de Camões


Luís de Camões (Lisboa ou Coimbra, c. 1524 – Lisboa, 1580) é considerado o poeta português mais completo de sua época, ou até mesmo de toda a literatura de língua portuguesa. É assim considerado não somente por ter feito uso de quase todos os gêneros poéticos tradicionais, mas também pela amplitude dos temas de que tratou e pelo excepcional domínio da língua. Camões manipulou todos os recursos da língua portuguesa, ampliando enormemente seu campo de expressão. 

Na obra de Camões, a língua portuguesa passou a expressar sentimentos, sensações, factos e idéias de uma forma que até então não fora alcançada por ninguém. Sua posição de destaque entre os poetas portugueses de seu tempo é devida também ao fato de em sua obra estarem presentes tanto o humanismo como a expansão ultramarina, isto é, os dois elementos que caracterizaram o Renascimento português. 

Tornou-se célebre não somente por ter escrito Os Lusíadas, longo poema épico que reflete toda a história e cultura de Portugal até a data em que o poema foi composto, mas também por sua obra lírica, constituída por vários tipos de poemas, entre os quais os mais famosos são certamente os sonetos.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

"Os Lusíadas", Camões


O género épico remonta à antiguidade grega e latina sendo os seus expoentes máximos Homero e Virgílio.
A epopeia é um género narrativo em verso, em estilo elevado, que visa celebrar feitos grandiosos de heróis fora do comum reais ou lendários. Tem pois sempre um fundo histórico; de notar que o género épico é um género narrativo e que exige na sua estrutura a presença de uma acção, desempenhada por personagensnum determinado tempo e espaço. O estilo é elevado e grandioso e possui uma estrutura própria, cujos principais aspectos são:

Proposição - em que o autor apresenta a matéria do poema;

Invocação - às musas ou outras divindades e entidades míticas protectoras das artes;

Dedicatória - em que o autor dedica o poema a alguém, sendo esta facultativa;

Narração - a acção é narrada por ordem cronológica dos acontecimentos, mas inicia-se já no decurso dos acontecimentos (“in medias res”), sendo a parte inicial narrada posteriormente num processo de retrospectiva, “flash-back” ou “analepse”;
Presença de mitologia greco-latina - contracenando heróis mitológicos e heróis humanos.